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Derrota da Seleção na final da Copa de 1998 virou motivo para a criação de uma CPI

NA MARCA DO PÊNALTI

CPI da Nike: o dia em que o futebol brasileiro foi parar no Congresso

Mobilização de deputados começou após derrota dolorida da Seleção em Copa do Mundo

Derrota da Seleção na final da Copa de 1998 virou motivo para a criação de uma CPI - Foto Rick Bowmer/AP

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Yuri Abreu
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Doze de julho de 1998. O Brasil foi goleado pela França, por 3x0, na final da Copa do Mundo, adiando o sonho do pentacampeonato — que viria em 2022. A comoção fez com que caísse por terra um dos principais ditados populares do país: "política e futebol não se misturam".

Pouco depois de uma das mais dolorosas derrotas em mundiais, a Câmara dos Deputados instaurou a chamada CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da CBF/Nike, com o objetivo de investigar as relações entre a entidade que comanda o futebol brasileiro e a empresa norte-americana de material esportivo.

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Quem fez parte da CPI?

O colegiado teve como principais comandantes dois nomes:

  • Aldo Rebelo — ele foi presidente da CPI e, à época, estava no PCdoB-SP. Em 2026, lançou pré-candidatura à Presidência da República, agora pelo DC.
  • Sílvio Torres — relator da CPI na Câmara. Junto a Aldo Rebelo, escreveu um livro em que narra os bastidores das investigações.

O começo de tudo

O primeiro contrato entre a CBF e a Nike foi firmado em 1995, após o tetra conquistado um ano antes, nos Estados Unidos, quando a Seleção Brasileira tinha como fornecedora de material esportivo a inglesa Umbro — comprada pela Nike em 2007.

CPI da Nike/CBF teve polêmicas, mas não teve relatório final votado
CPI da Nike/CBF teve polêmicas, mas não teve relatório final votado | Foto: Reprodução

Conforme informado na ocasião, o contrato teria validade até o ano de 2005, sendo 40 milhões de dólares por ano. Do montante, 16 milhões de dólares seriam direcionados para a CBF, 8 milhões de dólares para indenização à Umbro pelo rompimento do contrato e o restante para uniformes, viagens, marketing esportivo.

Ricardo Teixeira

Uma figura central nessa relação é o ex-presidente da CBF, Ricardo Teixeira. Eleito em 1989, permaneceu à frente da entidade até 2007, após acumular diversas polêmicas na sua gestão — o mandato dele deveria durar até 2015.

No entanto, à época, as suspeitas apontavam que o mandatário da entidade teria assinado sozinho o contrato, enquanto quatro empresários assinaram pela Nike — isso teria feito a CBF ter prejuízos anuais após a assinatura do contrato.

O ex-presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Ricardo Teixeira
O ex-presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Ricardo Teixeira | Foto: José Cruz/Agência Brasil

Doações

Apesar deste cenário, a CPI apurou aplicações da Confederação em ouro no exterior, além de mais de R$ 650 mil doados para candidatos a deputados e senadores, entre eles o ex-presidente do Vasco da Gama e ex-deputado federal, Eurico Miranda, falecido em 2019.

Além disso, o deputado federal Silvio Torres, relator daquela CPI, afirmou que a CBF havia acatado cláusulas do contrato, entre as quais a Nike teria a permissão de convocar até oito jogadores e decidir quais amistosos a seleção iria realizar.

Mario Zagallo durante depoimento na CPI da CBF/Nike, na Câmara dos Deputados
Mario Zagallo durante depoimento na CPI da CBF/Nike, na Câmara dos Deputados | Foto: Eraldo Peres/AP

Influência

Os deputados ainda acreditavam que a influência da Nike sobre a CBF ia para além da parte administrativa e fornecimento de material, ingressando nas quatro linhas. Um caso emblemático é o atacante Ronaldo "Fenômeno".

Antes daquela final da Copa do Mundo de 1998, um dos principais jogadores daquela equipe sofreu uma convulsão e esteve fora da lista inicial de titulares para o duelo contra a França. Porém, momentos após o fato, uma nova lista foi divulgada com a presença do atleta.

Entre os parlamentares da época, houve quem dissesse que a escalação de Ronaldo só ocorreu devido a uma imposição da Nike, o que não ficou comprovado.

Convocações

O colegiado, além da cúpula da CBF — a exemplo do ex-presidente Ricardo Teixeira —, colocou na mira jogadores e ex-jogadores para depor. Além do próprio Ronaldo, também depôs o ex-atacante Careca, titular no ataque do Brasil nas Copas do Mundo de 1986 e 1990, e o técnico da Seleção em 1998, Mário Jorge Lobo Zagallo.

CARECA1 BSB 07/12/00 -ESPORTES - ANTONIO OLIVIERA(CARECA) EX JOGADOR, DURANTE ENTREVISTA APOS REUNIAO DA CPI DA NIKE, NO CONGRESSO. FOTO JOEDSON ALVES/AE
CARECA1 BSB 07/12/00 -ESPORTES - ANTONIO OLIVIERA(CARECA) EX JOGADOR, DURANTE ENTREVISTA APOS REUNIAO DA CPI DA NIKE, NO CONGRESSO. FOTO JOEDSON ALVES/AE | Foto: Jodeson Alves/AE

Além dos três, foram chamados para depor:

  • o ex-técnico da Seleção Brasileira, Wanderley Luxemburgo,
  • o ex-presidente da Fifa, João Havelange;
  • o ex-ministro dos Esportes, Pelé;
  • o presidente da Traffic, empresa que intermediou o contrato, José Hawilla;
  • o então presidente da Nike, Kevin Gosney;
  • o ex-presidente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), Arthur Nuzman

Resultados

Mesmo com as 237 horas e 16 minutos de reuniões na Câmara dos Deputados, além dos 125 depoentes, a CPI acabou em 2001 "terminando em pizza", sem o relatório final ter sido votado.

O documento, de 800 páginas, pediu, entre outros, o indiciamento de Teixeira e outros 33 nomes, entre dirigentes, empresários e outros envolvidos.

À época, Torres afirmou que o relatório não foi levado à votação por medo de que os oito meses de trabalho fossem perdidos.

Como está a relação entre CBF e Nike

Mesmo após as polêmicas entre a entidade e a fornecedora de material esportivo, em dezembro de 2024 houve uma nova renovação do contrato, até o ano de 2038, tornando-se o maior acordo de material esportivo entre seleções no mundo.

A nova parceria, que entra em vigor após o fim do contrato atual em 2026, prevê um valor fixo de 100 milhões de dólares por ano (R$ 608 milhões na cotação de dez/2024), com royalties que podem elevar o ganho total para até R$ 1 bilhão por ano.

O contrato atual, que vai até o fim deste ano, pagava cerca de 35 milhões de dólares/ano — R$ 213 milhões.

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