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Rosa Correia: “Não fomos preparados para envelhecer, mas podemos nos preparar agora”

CEO do Instituto Amadurecer diz que preconceito contra a velhice começa antes dos 50

Pedro Resende

Por Pedro Resende

04/01/2026 - 8:02 h
Aos 60 anos, Rosa Correia combate o etarismo e propõe um novo jeito de envelhecer
Aos 60 anos, Rosa Correia combate o etarismo e propõe um novo jeito de envelhecer -

Aos 50 anos, depois de quase três décadas atuando no setor de terraplenagem e construção, Rosa Correia percebeu que nada do que via ao seu redor dialogava com o futuro que se aproximava. “Eu não via nenhum empreendimento sendo pensado para pessoas que estavam envelhecendo”, lembra.

A inquietação virou pesquisa e, depois, propósito. Assim nasceu o Instituto Amadurecer, criado para preparar pessoas para viver uma maturidade ativa, saudável, participativa e para enfrentar o que ela identifica como a raiz do problema: o preconceito cultural contra o envelhecimento. Hoje, com 60 anos, Rose está à frente da instituição que atua com formação, comunicação e projetos que ajudam a reescrever padrões, promover autonomia, fortalecer redes e inserir a geração com mais de 50 anos em um mundo que ainda resiste em enxergá-la.

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Para Rosa, a urgência é clara, mas é possível se atualizar. "Não fomos preparados para envelhecer, mas podemos nos preparar agora".

Qual foi o primeiro momento em que você se deparou com o etarismo, a discriminação com base na idade?

Há exatamente dez anos, quando fiz 50 anos, eu já acumulava 28 anos no setor de terraplenagem e construção em Salvador. Trabalhei por muito tempo na empresa da minha família e, nesse período, algo passou a me incomodar profundamente: eu não via nenhum empreendimento sendo pensado para pessoas que estavam envelhecendo. E isso começou a me afetar porque eu própria estava olhando para o meu processo de envelhecimento. Percebi que precisava entender o que não existia para o futuro que estava diante de mim. Comecei a pesquisar moradias e soluções para pessoas maduras e percebi que Salvador não estava preparada para nada disso. A partir daí, passei a estudar.

Pesquisei o mercado imobiliário voltado para o envelhecimento, viajei a São Paulo e visitei vários lugares. Queria entender o que estava sendo feito porque, no meu universo de construção e terraplenagem, não havia absolutamente nada voltado para idosos. Nas pesquisas, encontrei um prédio em Salvador que havia sido planejado para esse público, mas o preconceito foi tão grande que ele precisou ser transformado, porque ninguém queria “morar em prédio de velho”. Foi quando entendi que o meu sonho de desenvolver um projeto de moradia não se sustentaria sem enfrentar algo anterior e essencial: o preconceito contra o envelhecimento. Nem as construtoras e nem as próprias pessoas conseguiam olhar para essa fase da vida. Então, comecei a pesquisar o envelhecimento em si e percebi que a raiz era cultural. O maior medo humano é morrer e envelhecer lembra a todos que estamos mais próximos disso. Decidi, então, trabalhar para desconstruir essa cultura.

Foi essa a experiência que te levou a criar o Instituto?

Sim. As estatísticas mostram que, com a mudança da pirâmide etária, nossa expectativa de vida aumentou. Antigamente, nossos avós viviam, em média, até 56 anos. Hoje, vivemos muito mais. Era necessário mudar a mentalidade da cidade. Foi assim que criei o Instituto Amadurecer, para mostrar às pessoas que envelhecer não significa ficar em casa esperando a morte chegar. Há muito o que viver. Eu mesma, dos 50 aos 60, fiz e aprendi tanta coisa. Quis mostrar que envelhecer não é apenas sobreviver até morrer: é viver plenamente esse período, que pode ser cheio de energia.

Paralelamente, desenvolvi um trabalho de comunicação. Fiz uma exposição fotográfica que abraçou a causa. Fotografamos diversas pessoas idosas e estampei essas imagens. Ver as famílias orgulhosas visitando aqueles retratos foi uma das experiências mais bonitas que já vivi. Fora a transformação que percebia em quem era fotografado. Me lembro do depoimento do fotógrafo no evento que fizemos no shopping. Esse retorno me confirmou que era isso que eu queria fazer: mostrar que existe vida antes da velhice e além dela. O Instituto Amadurecer nasceu para atuar nesse campo.

Quais são as questões mais urgentes na pauta do envelhecimento?

Há muitos pontos a serem discutidos: renda, autonomia e permanência ativa são alguns deles. A pandemia [de Covid-19] escancarou o envelhecimento da população. As projeções mais recentes indicam que, em 2030, teremos mais pessoas com 50 anos do que com 15. E, ao mesmo tempo, começou-se a falar sobre o apagão de talentos nas empresas. As organizações perceberam o déficit de concentração dos mais jovens e identificaram a importância da mão de obra madura. Fiz uma parceria com a empresa paulista Maturi, especializada em promover a inclusão, empregabilidade e valorização de pessoas com mais de 50 anos no mercado de trabalho. A ideia era certificar empresas que adotassem esse olhar.

A certificação, inclusive, foi inspirada em modelos dos Estados Unidos, porque o Brasil ainda não tinha base para isso. Estamos criando essa consciência agora. Quando eu procurava algumas empresas, muitas diziam: “Mas já temos pessoas com mais de 50 anos aqui”. E todas estavam perto de se aposentar. Isso é etarismo. O Brasil não olha para o idoso como alguém com potencial para contribuir – apenas como alguém que está terminando a carreira. O Instituto atua justamente para apoiar essa mudança, promovendo capacitações, discussões e eventos. O primeiro passo é se conscientizar de que, até envelhecer, é preciso viver. Para mim, o primeiro passo é simples e profundo: perceber que você não precisa viver preso ao que disseram que deveria ser. Não fomos preparados para envelhecer, mas podemos nos preparar agora.

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Como lidar com a solidão e com o impacto emocional de ver o próprio círculo diminuir durante o envelhecimento?

A pessoa primeiro precisa se conscientizar e, depois, se preparar. Essa preparação se dá na criação de uma nova rede de contatos. É preciso se atualizar, se reciclar, fazer novas capacitações, e, ao fazer isso, inevitavelmente criar novas amizades. Há muita gente da mesma faixa etária buscando esses cursos. Além disso, é fundamental investir em autoconhecimento. Não digo que seja apenas sobre fazer terapia, mas o processo terapêutico é necessário, porque hoje um dos dados que mais preocupa a saúde pública é a questão mental. As pessoas precisam se conhecer para saber lidar consigo mesmas e com as perdas.

Trabalhar esses lutos também é uma forma de se fortalecer, ou seja, conhecer novas pessoas, formar redes e encontrar novos espaços. Precisamos olhar para o envelhecimento como ele realmente é, e encarar a realidade do brasileiro hoje. Vivemos uma crise previdenciária anunciada, uma tragédia que está para acontecer. Quem está envelhecendo, os chamados 50+, não conseguirá sobreviver apenas da aposentadoria. Por isso, é fundamental a conscientização de que nós, os tais 50+, precisaremos estar ativos, inclusive para complementar a renda e manter nosso padrão de vida. Isso significa se reinserir no mercado, buscar formas de empreender, identificar talentos e se capacitar para transformá-los em algo que gere uma renda extra.

Mudar hábitos é uma tarefa muito difícil. Como sair de casa e ampliar o círculo social? Como ter vontade de fazer isso?

Pois é. Mas, a pessoa nem precisa ter vontade. Ela precisa ter consciência de que, se não fizer, corre o risco de deprimir ou de cair em um vazio existencial. Se você buscar a definição básica de aposentadoria em qualquer fonte, verá que significa literalmente “ir para os aposentos”. Esse conceito foi criado por Otto von Bismarck, chanceler na Alemanha, há mais de 130 anos. O mundo mudou. A velocidade da vida mudou. A tecnologia mudou. Então precisamos nos atualizar. Hoje, é possível fazer cursos particulares, gratuitos, uma nova faculdade ou uma pós-graduação. Muitos já têm graduação, mas podem se especializar em outra área. Ou podem transformar um talento em renda. “Faço um bolo ótimo, todo mundo elogia”. Então, por que não tentar vender esse bolo? Há inúmeros casos de pessoas que descobrem habilidades incríveis ao envelhecer.

Dia desses, por exemplo, vi o vídeo de uma mulher que criou uma fábrica de lingerie depois dos 70 anos porque não encontrava peças confortáveis para ela. É isso: olhar para o envelhecimento e identificar o que não está confortável. O mundo da juventude eterna que nos venderam não existe mais. Estatisticamente, nós, 50+, já somos maioria, somos 56% da população. É reconhecer isso e se perguntar: “O que eu preciso fazer? Por onde começo?”. Não sabe mexer no celular para divulgar seu trabalho? Faça um curso de redes sociais. Vai vender bolo? Faça um curso de fotografia para registrar bem o produto. Temos GPS, câmera, internet, tudo na palma da mão. É aprender a usar. E há muitos grupos: rodas de mulheres 50+, grupos de pintura, leitura e cursos diversos. Em cada um deles, você conhece novas pessoas. Vai perder alguns amigos por causa da velhice? Vai. Mas também vai ganhar muitas outras companhias.

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