CRÔNICA
Por que deixar Salvador no fim do ano pode ser um ato de sobrevivência
Confira a crônica de Franklin Carvalho

Por Franklin Carvalho*

Janeiro estreia e é hora de deixar o refúgio no interior e voltar a Salvador.
As coisas não estavam mesmo muito fáceis quando debandei da capital em dezembro. De dia, os vizinhos quebravam todas as paredes e pisos nas típicas reformas de final de ano, crentes que o 13º cobriria a obra. De noite, os bares da vizinhança fechavam a rua com mesas no calçamento, tocando axés quarentões para um público sexagenário num ritual pré-histórico. A cerveja barata atraía todos os desgarrados do Centro de Salvador para aquele rito madrugada adentro.
No edifício onde moro, muitos apartamentos já estão pendurados no aplicativo internacional de aluguel por temporada. Os vizinhos reclamam no grupo do condomínio, acham os visitantes muito folgados, mas é em vão. Todo dia chega e parte gente com enormes malas. A síndica imprimiu um cartaz em três idiomas para informar que só cabem três pessoas no elevador, e essa foi a única providência possível para o regramento da nossa Babel.
Escapei do prédio antes do Natal, e até fui muito modesto, escolhendo um destino menos concorrido. Nada de litoral ou Chapada nem outros pontos instagramáveis e lotados. Corri para um ranchinho no sertão de Araci. Quintal com pés de acerola e limão, família por perto e memórias vivas. Presépios, lembranças de outros natais e antigas fotografias nas casas dos parentes.
Aqui conheci também a enorme loja de ervas para banhos espirituais que abriu próximo à feira livre, com quadros de caboclos, incensos e outros itens. No retorno ao rancho o motorista da praça me pergunta se acredito “nessas coisas”. Ele estava preocupado porque soube que a sua ex-esposa comprou ingredientes para um trabalho num estabelecimento semelhante. Digo que não sei, e é a minha resposta mais honesta.
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No meu quintal as mulheres tagarelam, os homens são sempre descansados e as crianças se emborralham na terra, mas rapidamente perdem o rumo da brincadeira. Os meninos não estão acostumados a conviver ao ar livre. Vou checar de perto, e falamos sobre saci, sereias e caiporas. Thiago, de 6 anos, diz que usaria um raio laser e uma granada para lobisomens e a mula sem cabeça.
Bernardo, de 8 anos, me explica que os touros não odeiam a cor vermelha, mas que são daltônicos, e por isso veem o toureiro como uma mancha cinza. Só se irritam porque estão sendo provocados.
Dali a pouco entram numa longa discussão sobre os vários nomes de dinossauros e suas particularidades, bem assim as versões de Godzilla para o cinema e TV. Sabem uma infinidade de dados sobre tecnologia, animais raros e outras curiosidades. Saio envergonhado da minha ignorância.
Vez ou outra tento colocar em dia alguma leitura ou revisar textos, mas a vida chama à dispersão. É preciso ser avô, tio, padrinho. É preciso tratar com o técnico da cerca elétrica, o da internet, o encanador, as vizinhas que sabem dos reais motivos da falta de água no bairro, os colegas de infância, os colegas de infância dos meus irmãos, os colegas sem infância.
E para eu tirar 10 nesse texto sobre minhas férias, devo dizer que tudo só vale a pena no contexto dessas e de outras pessoas que sequer programaram ceia no Natal ou vestiram branco no halloween (desculpem, é réveillon) de virada de ano. Gente que, aqui ou na capital, estará comigo no novo ano, com o coração serenado.
E tudo só vale por elas, pelas pessoas, numa vida com os dois pés no chão e paz. Vamos com calma, que o Brasil é nosso.
*Franklin Carvalho é autor de Tesserato – A Tempestade a Caminho (Ed. Noir)
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