CULTURA
Bienal do Livro: Ailton Krenak alerta para abismo entre humano e natureza
Filósofo participou do "Café Literário", junto com a escritora Vanda Machado
O Centro de Convenções Salvador foi marcado por um mergulho profundo nas raízes da identidade brasileira, na tarde desta sexta-feira, 17. O escritor, filósofo e imortal da Academia Brasileira de Letras, Ailton Krenak, se uniu à professora e escritora Vanda Machado na sessão “Café Literário” da Bienal do Livro Bahia.
Sob o tema “Memória indígena e memória negra: futuros possíveis”, os palestrantes provocaram o público a repensar a distância entre o ser humano e a natureza, defendendo a ancestralidade não como algo estático, mas como tecnologia viva de sobrevivência.
O abismo entre o corpo e a terra
Durante a palestra, Krenak criticou o isolamento da experiência humana contemporânea. Para o líder indígena, a sociedade ocidental criou um distanciamento perigoso ao objetificar o meio ambiente. “Os rios, as águas, tudo isso que a gente aprendeu que é a natureza, somos nós mesmos”, afirmou.
Ele alertou para o que chama de "abismo cognitivo", uma separação mental que nos faz enxergar o mundo ao redor como algo externo ao nosso próprio corpo.
“A própria ideia de ecologia, meio ambiente, dessas novidades que a gente foi falando, foram instituindo cada vez mais uma distância entre experiências para equilíbrio e essa ideia de mundo que está cada vez mais nos abismando”, pontuou Krenak.
Um jardim de humanidades
Apesar do cenário de crise, o filósofo trouxe uma perspectiva otimista baseada na coletividade e na "paisagem humana". Ao observar o auditório lotado, Krenak sugeriu que a solução para os dilemas da humanidade não virá de indivíduos isolados, mas da diversidade cultural.
“Se podemos olhar essa paisagem humana e pensar ela como natureza... imaginar que aqui tem um jardim de humanidades com uma riqueza tão absolutamente maravilhosa que ela é capaz de dar resposta para as coisas que a gente ainda não sabe”, refletiu.
Educação e afeto como política
Vanda Machado, criadora do projeto Irê Ayó, trouxe o debate para o campo da formação de novos cidadãos. Para a educadora, a escola precisa romper com a fragmentação do conhecimento e focar na construção de sujeitos solidários.
“O Irê Ayó pensa nos sujeitos autônomos, solidários e coletivos. É nesse sentido que tudo o que for dito para a nossa criança seja no sentido de formar pessoas. Não é uma escola só de aprender história, geografia, ciência, cada coisa no seu cantinho", defendeu.
Ela destacou que o ensino deve propiciar à criança a visão da vida como um todo conectado, combatendo o esvaziamento de sentido presente nos conteúdos digitais superficiais.
A ilusão do amanhã
Um dos pontos altos do diálogo foi o questionamento sobre a procrastinação da responsabilidade socioambiental. Krenak foi enfático ao dizer que a ideia de um futuro distante serve como desculpa para a a falta de ação no presente.
“Quem sabe a ideia de que o futuro está em outro lugar, seja uma maneira da gente não se responsabilizar pelas escolhas que estamos fazendo já, aqui e agora. Nós fazemos escolhas agora e achamos que o futuro está depois, está em outro tempo, então aquele futuro que está em outro tempo nós vamos poder consertar as coisas que fazemos agora. No ponto de vista do corpo da terra, não tem conserto", destacou.
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