Abrigos sérios dão proteção e são opção segura de adoção de felinos
Espaços de acolhimento são contraponto ao abandono comum nas férias de Verão

Nem precisa entender muito sobre princípios básicos da causa animal para perceber, nas ruas, que o Brasil está longe de assegurar aos bichos condições adequadas de proteção. Em Salvador, cães e gatos lotam abrigos em busca de adoção.
Em um dos fundados mais recentemente, acomodados em cinco salas climatizadas, no bairro do Rio Vermelho, 147 felinos castrados e vermifugados aguardam, há cerca de um ano, por um novo lar.
“Atualmente, temos gatos que estão em busca de um novo lar, de uma família; a grande vantagem de adotar um dos nossos é que são animais com a saúde plena”, explica Joilson Souza, médico veterinário responsável pelo espaço.
Os interessados devem fazer contato pela página do abrigo no Instagram @adoteumgatinho.salvador ou pelo WhatsApp (71) 98513-4519. Desde que o espaço foi criado, eles conseguiram encaminhar poucos animais para adoção.
No local, seis funcionários e um veterinário se revezam nos cuidados com os felinos. Lá eles têm, além de alimentação, vermifugação e vacinação, enriquecimento ambiental e muito afeto.

Abrigos lotados
Foi de um abrigo que a agente de viagens Tatyana de Carvalho Vaz, 53 anos, adotou as gatinhas Emilia e Teresa. “Fui dar uma olhadinha numa feira que estava acontecendo num petshop e voltei para casa com as duas, uma já era adulta e a outra tinha uns cinco ou seis meses”, conta.
Tatyana fez a adoção após o luto de perder, subitamente, dois outros felinos que resgatara das ruas.
“Os abrigos têm a força de mostrar que é possível cuidar e transformar consciências. Quem visita um abrigo estruturado sai diferente”, afirma Gilce Sant’Ana dos Santos, 64 anos, que mantém 213 animais no Abrigo Animais Aumigos, no bairro Jardim das Margaridas, em Salvador. Os interessados em adotar um animal devem entrar em contato pelo @abrigoanimaisaumigos.
Quando políticas públicas oferecem soluções eficazes é possível assegurar a preservação da saúde pública. “Os abrigos, se bem monitorados, podem amenizar o sofrimento de gatos de rua e moradores das comunidades onde estão”, explica a corretora de imóveis Leia Figueiredo, 50 anos, responsável por um espaço que faz a mediação entre felinos resgatados e adotantes responsáveis em Guarajuba.
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Já a protetora Daise Costa Prieto ressalta a necessidade de políticas públicas específicas e campanhas educativas para estimular o engajamento da sociedade. Gilce, por sua vez, lembra que a maioria dos abrigos vive de doações, o que “limita recursos para manter equipes, observação contínua e manejo”.
A Secretaria de Sustentabilidade, Resiliência, Bem-Estar e Proteção Animal (Secis) de Salvador informou, por meio da assessoria de imprensa, que a prefeitura municipal colabora “por meio de chamamentos para doação de ração e apoio pontual a abrigos”.
DR. PET [TIRA-DÚVIDAS]
Veja como ajudar os bichos em situação de abandono
Os abrigos costumam receber animais resgatados por outras pessoas ou apenas os que a própria equipe recolhe?
Não. Os animais abrigados, em geral, chegam a estes locais resgatados pelas próprias instituições em situações específicas ou encaminhados por órgãos envolvidos na proteção animal. Não existe nenhum espaço para onde uma pessoa possa encaminhar um animal resgatado das ruas a não ser a própria casa.
De que forma é possível ajudar no processo de combate ao abandono e no apoio a estas instituições?
A melhor forma de ajudar é realizar contribuições financeiras e estimular a adoção. Oferecer um novo lar para um animal abrigado também é outra forma eficaz de apoio à causa animal. Levar um bicho de um abrigo para casa abre vagas para o acolhimento a outros animais. Outra forma é recolher o animal e mantê-lo em lar temporário arcando com os custos disto até a adoção.
Artigo: Desafios do abrigamento animal
Por Gilce Sant'Ana dos Santos - Co-fundadora do Abrigo Animais Aumigos
Ouvindo a fala de uma protetora, chama atenção a afirmação de uma estatística que aponta cerca de 300 mil animais abandonados em Salvador. Não se sabe quem realizou esse levantamento, nem qual metodologia foi utilizada. Ainda assim, o dado é usado para sustentar a ideia de que o abrigamento não é uma resposta, como se algum abrigo sério tivesse, em algum momento, afirmado que poderia resolver sozinho um problema dessa dimensão.
Nenhum abrigo responsável faz essa afirmação. E é aqui que a pergunta se impõe. E ela precisa ser feita: enquanto as políticas públicas não chegam, enquanto a educação da sociedade não acontece, enquanto a castração maciça não se torna realidade, o que se faz com esses 300 mil animais que estão nas ruas?
O que se faz, hoje, com os animais reais? Com os idosos, os filhotes, os enfermos, os feridos, os que não resistem sem cuidado? Deixa-se morrer na rua? Ignora-se a existência deles em nome de um ideal futuro?
A realidade não espera. Muitas pessoas se afastaram do abrigamento e não foi por comodismo. Foi porque abrigar é o trabalho mais difícil da causa animal. É exaustivo, contínuo, sem pausa. É um trabalho que raramente recebe reconhecimento público. O que existe, quase sempre, é apenas a consciência tranquila de que se fez algo por uma vida e a certeza íntima de que aquela vida importa.
Classificar o abrigamento como “acúmulo” ignora tudo isso. Não é apenas uma opinião. É um discurso que produz consequências. Ele empurra pessoas para fora do cuidado direto e desmobiliza.
A causa animal não se resolve por uma única via. Ela não comporta soluções únicas, nem discursos absolutos. Castração, educação e políticas públicas são fundamentais, mas não substituem o acolhimento enquanto houver animais que não sobreviveriam na rua.
O abrigamento não é ideal. Ele é necessário. Ele existe porque a realidade impõe escolhas duras. Ele persiste porque alguém assume o que muitos não conseguem assumir. E a pergunta permanece, incômoda: enquanto o ideal não acontece, o que se faz com os animais que sofrem?
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