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A Tarde Memória

Por Priscila Dórea*

ACERVO DA COLUNA
Publicado sábado, 24 de janeiro de 2026 às 8:01 h | Autor:

Saga do gângster Al Capone foi acompanhada pelos baianos nos anos 30

Cobertura visionária de A TARDE na época atualizou leitores sobre a prisão, julgamento e condenação do ‘Inimigo Público Número 01’ dos EUA

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Al Capone em 1930, pouco antes do julgamento e condenação
Al Capone em 1930, pouco antes do julgamento e condenação -

Os baianos da década de 1930 tiveram um folhetim extra para acompanhar. E, dessa vez, a história era pautada na vida real. O gângster Al Capone dominou Chicago (EUA) nos anos 20 e 30 do século passado com uma rede de contrabando de bebidas, jogos ilegais e episódios de violência extrema que chocaram o mundo. Só por isso, o personagem já seria intrigante. Mas, para os leitores de A TARDE, Al Capone virou quase um inimigo íntimo, pois o passo a passo da sua prisão, por sonegar impostos, o julgamento e encarceramento, a saída da penitenciária e até a morte melancólica em um hospital, por complicações de sífilis, renderam cobertura intensa nas edições do jornal, atualizando a audiência como a melhor minissérie da atualidade.

E, até nisso, o jornalismo de A TARDE foi visionário porque antecipou uma tendência muito antes do fascínio pelo “true crime”. Com o passar dos anos, a notoriedade do mafioso não se limitou ao submundo e Al Capone virou tema para filmes, músicas e séries que alimentaram o fascínio dos consumidores de produtos culturais ávidos por saber mais sobre a vida bandida.

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Filho de imigrantes de Nápoles (Itália), Alphonse Gabriel Capone nasceu em 17 de janeiro de 1899 em Nova Iorque, e seu lado brutal não demorou para aparecer. Aos 14 anos, abandonou a escola após agredir um professor e, enquanto trabalhava em diversos empregos temporários como "balconista em uma loja de doces, operador de pinos em uma pista de boliche, operário em uma fábrica de munições e cortador em uma encadernadora", lista o perfil biográfico de Capone na enciclopédia Britannica, já fazia parte de gangues juvenis como a South Brooklyn Rippers, Forty Thieves Juniors e a James Street Boys, liderada por John "Papa Johnny" Torrio, mais tarde seu mentor.

Aos 16 anos, Capone entra para a Five Points, gangue de Frankie Yale, adicionando vários incidentes violentos ao currículo antes de completar 21 anos, como a briga com o delinquente Frank Galluccio após este ouvir um comentário grosseiro sobre sua irmã vindo de Capone. Galluccio cortou a bochecha de Al com uma faca, o que lhe rendeu o apelido de Scarface (cara de cicatriz, na tradução livre do inglês).

Em Chicago, o rapaz inicia sua escalada rumo ao topo do crime organizado ao trabalhar e aprender com Papa Johnny, que administrava o gigantesco negócio de bordéis do chefe do crime Big Jim Colosimo. Esse mafioso foi morto após a chegada de Al à cidade em 1919. A morte do chefão abriu caminho para o domínio de outros chefes que faturavam bastante com o contrabando de bebidas alcoólicas no período da Lei Seca nos EUA, entre 1920 e 1933, quando ficou proibida a fabricação, venda e transporte de bebidas alcoólicas em todo o país. Em 1925, o mentor de Capone se aposenta e ele assume.

Liderando um grupo criminoso com operações em apostas, agiotagem, prostituição e, principalmente, comércio e contrabando de bebidas, Al Capone vira o ‘Inimigo Público nº 1 dos EUA’ após o Massacre do Dia de São Valentim, em 14 de fevereiro de 1929, quando sete membros de uma gangue rival, chefiada pelo gângster George Clarence ‘Bugs’ Moran, foram assassinados em Chicago. O crime chocante aumentou a pressão sobre Al Capone, embora ele nunca tenha sido formalmente condenado pelas mortes.

Os recorrentes episódios onde Al Capone se livrou da punição e, ao mesmo tempo, mostrou seu poder diante das autoridades policiais inspiraram a literatura e o cinema a criarem gângsteres como Don Vito Corleone (O Poderoso Chefão, livro de Mario Puzo transformado em filme, em 1972) e Tony Montana (Scarface, filme de 1983).

O começo do fim

Em 27 de fevereiro de 1929, quando Al Capone foi intimado a comparecer como testemunha em um caso envolvendo a violação da Lei Seca, ele afirmou que não poderia depor porque estava com broncopneumonia há seis semanas, acamado em Miami, e sem condições de viajar para depor. A partir daí, o FBI (a polícia federal dos EUA) começou a investigar o mafioso, segundo consta no artigo 'Desvendando Scarface: Como a lei finalmente alcançou Al Capone'.

Al Capone foi fotografado em carro na saída da prisão em 1939
Al Capone foi fotografado em carro na saída da prisão em 1939 | Foto: Cedoc A TARDE/25.11.1939

O que levou a polícia a desconfiar foi o fato do suposto acamado Al Capone ir a hipódromos ver corridas de cavalos e viajar para as Bahamas. "Segundo todos os relatos, sua saúde estava ótima", diz trecho do artigo.

Um mês depois desse episódio, em 27 de março de 1929, o mafioso foi acusado de desacato ao tribunal e libertado sob fiança. Era o começo do fim do gângster. Menos de dois meses depois, foi sentenciado a um ano de prisão por porte ilegal de armas. Na sequência, foi preso outra vez, logo depois de cumprir a sentença por porte ilegal, dessa vez por seis meses pela acusação original de desacato.

Entre as idas e vindas da prisão, agentes do Tesouro Federal dos EUA vinham reunindo provas de que Capone não havia pagado seus impostos de renda, um caminho que encontraram para finalmente pegar o Scarface. Desde 1927, a Suprema Corte do país havia decidido que rendas ilegais (oriundas de crime) também deveriam ser tributadas.

Capone em A TARDE

Em 1931, Al Capone tentou reverter a situação com o Tesouro americano. E é a partir daí que a saga do criminoso começa a ser narrada de forma sistemática nas edições de A TARDE. "O bureau do imposto sobre a renda recusou aceitar a somma de quatro milhões de dollares que Al Capone, rei dos gangsters, de Chicago, fez entrega para pagar impostos que tinha criminosamente sonegado, sendo denunciado pelo Tribunal. A offerta de Al Capone é considerada ilegal e o acto do mencionado bureau é julgado medida severa, com o fito de exterminar as quadrilhas dos contrabandistas que campeiam em Chicago e Nova York", informava a nota vinda de Washington e publicada na edição de 16 de janeiro de 1931.

Depois dessa primeira notícia, uma sequência de notas chegava sistematicamente dos Estados Unidos via agências de notícias com as quais A TARDE trabalhava na cobertura internacional. Esse conteúdo era publicado, em sua maioria, na área mais nobre do jornal, a capa, mesmo que como notícia de última hora, no rodapé da página. As mais importantes subiam na hierarquia e ficavam no topo da página. As notas e matérias relatavam todas as reviravoltas do processo de Al Capone para os leitores baianos.

Chamada de Capa com foto, sobre libertação de Al Capone da prisão
Chamada de Capa com foto, sobre libertação de Al Capone da prisão | Foto: Cedoc A TARDE/25.11.1939

Em 20 de outubro de 1931, A TARDE informou que "o jury condemnou Al Capone, culpado por burla de imposto aduaneiro, depois de oito horas de sessão. Al Capone ficou sujeito a 17 annos de prisão, em penitenciaria federal, e 50 mil dollares de multa". Em 27 de outubro, outra notícia afirmava que "Al Capone, condemnado a 17 annos de prisão e multa de 50 mil dollares, será preso immediatamente".

O ex-chefão de Chicago começou a cumprir pena em novembro de 1931. Ele recorreu da sentença e enquanto aguardava o resultado do recurso, em 1º de março de 1932, a notícia de que Charles Augustus Lindbergh Jr. havia sido sequestrado virou notícia. Charles Jr. era o filho de 1 ano e 6 meses do famoso aviador Charles Lindbergh, o primeiro a fazer um voo solitário transatlântico sem escalas, em 1927. De dentro da penitenciária, Al Capone surge nessa história como um suposto benfeitor que usaria suas conexões no submundo para ajudar a encontrar a criança e assim aliviar sua pena. Para alguém que comandava cassinos ilegais, bem poderia ser um blefe de jogador experiente.

Blefe ou realidade, Capone conseguiu se manter no noticiário graças a esse caso. A TARDE, em edição de 12 de março de 1932, informava: "O famoso gangster Al Capone, que cumpre, na prisão, a pena por sonegação do imposto de renda, pediu as autoridades que o libertassem provisoriamente, afim de participar das pesquizas para a descoberta do menor Charles Lindbergh. Al Capone promptificou-se a depositar, immediatamente, até a quantia maxima de 200 mil dólares."

Capone buscava limpar sua imagem, mas a família Lindberg recusou a oferta. O corpo do bebê foi encontrado semanas depois e a investigação levou à condenação de Bruno Hauptmann, um carpinteiro alemão. Enquanto isso, o recurso de Capone foi negado e meses depois ele foi transferido para o Presídio Federal de Atlanta.

Outra tentativa de limpar sua imagem foi noticiada em 1935, quando o mafioso já havia sido transferido para a prisão de Alcatraz (Califórnia). "O inimigo público n. 1 dos Estados Unidos, Al Capone, rei dos 'gangsters', será lembrado algum dia como bemfeitor dos esportes. Segundo lemos numa revista estrangeira, o famoso personagem que cumpre actualmente a pena de 17 annos de prisão na penitenciaria da Ilha de Alcatraz, não muito longe de S. Francisco, onde se distingue por sua conducta exemplar e actos de beneficencia, acaba de destinar a somma de 60.000 francos para a construção de um campo de esportes e uma quadra de tennis na citada prisão", conta a nota em A TARDE de 4 de dezembro de 1935.

Capone havia sido transferido para Alcatraz em 1934 e foi onde passou os anos mais difíceis de sua condenação. A prisão californiana, que tinha a fama de inexpugnável, não foi para onde Capone esperava ir quando admitiu sua ‘derrota’ para o governo norte-americano em 1932. "Estou prompto para a prisão, seja em Leavenworth ou em Atlanta e ao começar a cumprir a pena a que me condemnaram, me parece que o prazo é muito longo", teria declarado o mafioso, segundo cita A TARDE, na edição de 2 de abril de 1932.

Em novembro de 1939, sofrendo de deterioração generalizada por causa do estágio avançado da sífilis terciária, ele foi libertado de Alcatraz e internado em um hospital de Baltimore. Já havia cumprido cerca de sete anos da sentença. Na edição de A TARDE de 25 de novembro de 1939, foram publicadas duas fotos, feitas com a técnica do clichê, da saída dele da prisão. A chamada e as fotos aparecem no topo da capa do jornal, logo perto da manchete: "Al Capone, o famoso gangster celebrizado pelos seus crimes durante o período da Lei Secca, nos Estados Unidos, depois de 7 annos de prisão, foi posto em liberdade. O clichê acima fixa um aspecto de Al Capone em um automóvel quando deixava o presidio que o reteve durante vários annos. Actualmente, Al está hospitalizado em Baltimore e está soffrendo de amollecimento cerebral", dizia a legenda das imagens. Quando seu quadro de saúde melhorou, Al Capone foi para sua casa na Flórida, onde ficou recluso até morrer de ataque cardíaco, em 25 de janeiro de 1947.

Máfia na cultura pop

"Hei, Al Capone, vê se te emenda. Já sabem do teu furo, nego, no imposto de renda. Hei, Al Capone, vê se te orienta. Assim dessa maneira, nego, Chicago não aguenta", canta Raul Seixas em sua música 'Al Capone', escrita por ele e Paulo Coelho para o álbum Krig-ha, Bandolo! (1973).

Inspiração para músicas, livros, filmes, séries e personagens marcantes da cultura pop, Al Capone e outros gângsteres de sua época ou posteriores ajudaram a construir um imaginário e estereótipos do que é ser um mafioso à moda antiga, misturando brutalidade e um certo carisma. O próprio chefão de Chicago mandava matar os desafetos, mas financiava artistas e dava comida aos pobres na época da Grande Depressão nos Estados Unidos, como se uma coisa servisse de compensação para a outra.

Os primeiros filmes inspirados no notório mafioso foram Alma no lodo (1931) e Scarface - A vergonha de uma nação (1932), produções responsáveis "por criar a categoria cinematográfica gângster", afirma a mestra em comunicação social Cristine de Andrade Pires em sua dissertação 'O poder do chefão: o mito da máfia italiana no cinema de Hollywood'. Porém, a própria situação das gangues e a Grande Depressão contribuíram para uma adaptação das normas e o estabelecimento de censura, fazendo com que, até o final da década de 1960, o gênero filme de gângster ficasse estagnado. Até ser revivido pelo filme 'O Poderoso Chefão', em 1972, que adaptou o best-seller homônimo.

O sucesso de Don Corleone foi absoluto e seguido por outras obras, como 'Scarface' (1983) e 'Os Intocáveis' (1987), que também tinham Capone como inspiração. "No período em que Capone ganhou popularidade, dividia as manchetes dos jornais com Bugsy Siegel, seu amigo de infância", afirma Cristine na dissertação. “Siegel era temido, charmoso e sempre estava nas páginas de celebridades, mas não ganhou espaço nas referências cinematográficas. Capone é o mafioso que mais se faz presente nas telas de cinema, em diferentes épocas e gêneros, seja na narrativa, seja como protagonista (...). O motivo para essa disparidade, ao que tudo indica, está no estereótipo do criminoso configurado no cinema a partir de The black hand (1906). Capone era ítalo-americano, e Bugsy, judeu", continua o texto.

No entanto, atribuir o sucesso dessas obras apenas à glamourização dos criminosos é uma forma simples de analisar o gênero, pois em cada uma de suas fases, desde 1900, há uma intensa apropriação do contexto sócio-histórico da época em que os filmes foram produzidos; além de uma nítida ruptura com o ciclo anterior. “A questão da imigração, fortemente explorada na primeira metade do século XX, que vinculou o italiano à criminalidade e o encenou como um indivíduo solitário e desprovido de quaisquer sentimentos, é substituída por uma estrutura criminosa de negócios baseada em um rígido código de conduta e valores familiares, postura que é rechaçada pelas obras seguintes, nas quais os personagens figuram como mafiosos frustrados", explica a dissertação.

É inegável que há perpetuação de signos que deram origem à formação do mito, continua o texto da pesquisadora. "A trilogia O poderoso chefão só ganhou as telas por ter privilegiado a italianidade dos personagens, herança das décadas anteriores. Os bons companheiros (1990) e Donnie Brasco (1997) mantêm essa característica. Embora revelem o submundo em sua forma mais cruel, essas produções também desfrutam do molde do criminoso italiano com sua natureza peculiar e inerente. Sob suspeita (2006) desconstrói o mito do herói e do anti-herói, mas exagera nos gestos caricatos atribuídos aos italianos e resgata os valores e crenças da máfia do Velho Mundo”, exemplifica o texto.

Os elementos que originaram a construção mítica desses criminosos permaneceram presentes e, ao longo do tempo, novas simbologias foram incorporadas às narrativas cinematográficas. "Não importa mais se o mafioso é truculento e solitário, devotado e leal, traidor e egoísta ou perdedor e medroso, pois ele já ocupa uma posição privilegiada na imaginação dos espectadores. O mito da máfia está posto e permanece vivo dentro e fora das telas, no imaginário da cultura popular”, conclui Cristine de Andrade Pires no seu texto.

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*Com a colaboração de Andreia Santana e Tallita Lopes

*Os trechos retirados das edições históricas de A TARDE respeitam a grafia da época em que as reportagens foram originalmente publicadas

*Material elaborado com base no acervo do CEDOC A TARDE

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