Do cometa Halley ao primeiro vírus: por que 1986 é um ano inesquecível?
Há 40 anos, o fusca parou de ser fabricado, uma usina nuclear e um ônibus espacial explodiram

Marcado por transformações sociais, na política, cultura e tecnologia,1986 é um dos anos que concentram mais fatos históricos de impacto. Em 2026, completam quatro décadas: o Plano Cruzado e a desistência da Volkswagen em fabricar o fusca no Brasil; a explosão do ônibus espacial Challenger e de um reator na usina nuclear de Chernobyl, dois desastres que marcaram o mundo; além do gol de mão de Maradona na Copa do México. E quem pode esquecer de ‘La mano de Dios’ (a mão de Deus, na tradução do espanhol)?
Houve ainda, a expectativa pela passagem do cometa Halley, que só acontece a cada 76 anos e deixou muita gente com torcicolo olhando para o céu; e o espalhamento do primeiro vírus de computador da história, via disquete, um acessório quase alienígena para muitos integrantes da geração Z.
Em Salvador, foi quando aconteceu a estreia do Arraiá da Capitá, ainda com o nome de Arraiá da Orla, em 21 de junho de 1986. "O Arraiá da Orla foi aberto, ontem, com apresentação das seis primeiras equipes que participaram do concurso de quadrilhas que terá continuidade hoje, a partir das 20 horas, no antigo Aeroclube de Salvador. (...) Trata-se de uma promoção de A TARDE, A TARDE FM, e TV Aratu. A programação segue até o dia 28 de junho", informava a edição de A TARDE do dia 22.
O jornal de 113 anos guarda em seu acervo fotos e reportagens de fatos históricos de mais de 100 anos e não seria diferente com aqueles que tornam 1986 inesquecível. Para abrir o quinto ano de existência do projeto A TARDE Memória, iniciativa vinculada ao Centro de Documentação (CEDOC) do jornal, neste primeiro sábado de 2026 relembramos os fatos mais importantes ocorridos há 40 anos. E você nem vai precisar de óculos especiais, um negativo fotográfico ou um antigo raio-x, basta seguir na leitura.
O vírus e o desastre espacial
O Brain (cérebro, em inglês) é considerado por muitos o primeiro vírus de computador. Em janeiro de 1986, ele infectou o mundo todo ao ser espalhado através de disquetes, gadgets que permitiam naquela época o salvamento e compartilhamento de arquivos antes do CD Room, dos pendrives ou da nuvem na internet. Criado por dois irmãos de Lahore, no Paquistão, o vírus infectava o setor de boot do disco rígido dos computadores, segundo explicação de Juan Manuel Harán, um dos coordenadores de conteúdo da WeLiveSecurity, empresa voltada à segurança da informação.
Segundo os criadores do Brain, o vírus teria sido desenvolvido, originalmente, não com a intenção de infectar sistemas, mas para monitorar a distribuição de cópias piratas de um software médico. Mas, um programador o levou para o sistema DOS e o transformou em um vírus que deixava os computadores superlentos. O espalhamento do vírus, no começo do ano, causou problemas para as empresas de tecnologia. Mas, o primeiro evento de impacto de 86 não foi o Brain e sim a explosão do ônibus espacial Challenger.
A causa do desastre no centro de lançamentos de Cabo Canaveral, na Flórida (EUA), foi um defeito nos tanques de combustível. O ônibus explodiu 45 segundos após a decolagem, matando os sete tripulantes. Entre as vítimas estava a professora Christa McAuliffe, a primeira civil a participar de um voo espacial. Quem assistia TV naquele final de janeiro, viu o acidente ao vivo.
"Após a decolagem, transmitida diretamente pela televisão, viu-se um gigantesco clarão surgindo do centro da Challenger, seguido imediatamente de uma enorme explosão, que transformou o ônibus espacial numa imensa bola de fogo", informou a edição de A TARDE de 29 de janeiro de 1986.

Usina, leite e medo de radiação
Poucos meses após a explosão da Challenger, outra ocorrência impactaria o mundo, a explosão de um reator nuclear na Usina de Chernobyl, na Ucrânia, em abril de 1986. "A União Soviética confirmou ontem a ocorrência de um acidente na usina atômica de Chernobyl, 130 quilômetros ao norte da cidade de Kiev, na região oeste do país, que danificou um reator nuclear. A informação foi dada pela agência TASS horas depois de os governos da Suécia, Finlândia e Dinamarca denunciarem que uma nuvem de material radioativo estava atingindo a região desde sábado. [...] O breve comunicado de TASS foi lido à noite num programa noticiário de televisão, não tendo ficado claro o efeito imediato que a nuvem de radioatividade estaria causando sobre a região", relatou a edição de A TARDE de 29 de abril de 1986.

A gravidade da explosão foi divulgada aos poucos pelo governo soviético do período e as primeiras fotos que mostravam a dimensão do problema só chegaram aos jornais de todo o mundo quase um mês depois. O que mais preocupava os países europeus, na época, era a nuvem radioativa e os efeitos da radiação na saúde de pessoas e animais, principalmente no Leste Europeu e naquelas nações que faziam fronteira com a Ucrânia.
Diante da crise de abastecimento que ocorria no Brasil na mesma época, países como a Polônia forneceram leite em pó ao país. Independente da comoção mundial pelos mortos em Chernobyl, a história brasileira e a da usina ucraniana se tocam justamente por conta do desabastecimento causado após alguns meses de vigência do Plano Cruzado, como o A TARDE Memória contou, em reportagem de dezembro de 2024.
Relembrando o que aconteceu, no final de fevereiro de 86, o então presidente José Sarney anunciou a implantação do Plano Cruzado para conter a inflação. Mas, o êxito do projeto foi curto e em 12 de dezembro, uma greve geral tomou conta do país. O congelamento de preços previsto no plano desestimulou o agronegócio, o que gerou escassez de produtos e longas filas nos supermercados. Itens como leite e carne sumiram das prateleiras e o governo brasileiro importou os produtos. Por conta disso, o leite produzido no Leste Europeu chegou ao Brasil. Mas, como o acidente nuclear era recente, a população suspeitava que o produto poderia estar radioativo, o que segundo as autoridades da época, não se confirmou após realização de testes.
Adeus ao Fusca
Enquanto os brasileiros disputavam caixas de leite nas filas dos mercados e tentava driblar a crise econômica que o Plano Cruzado não resolveu, a fabricante de automóveis Volkswagem anunciou que deixaria de fabricar o amado Fusquinha no país. "O alto custo da montagem, em relação a outros modelos mais novos da Volkswagem e a queda gradativa nas vendas a partir de 80-81, quando o consumidor brasileiro passou a dar preferência a carros mais confortáveis e sofisticados, são os motivos principais para a desativação da linha de produção do fusca até o final do ano. (...) Até o momento, a Volkswagem estima em dois milhões e meio o número de fuscas em circulação no Brasil, dos três milhões já produzidos nestes últimos 27 anos", explicava a edição de A TARDE de 12 de agosto de 1986.
VW Beetle é o nome de nascença do Fusca, que recebeu esse apelido no Brasil. Reza a lenda corrente no setor automotivo que esse nome peculiar nasceu a partir da forma como os brasileiros entendiam a pronúncia da palavra Volkswagem em alemão, algo como "fusquevaguem".
O Fusca foi o primeiro modelo de automóvel fabricado pela empresa e o carro mais vendido no mundo, além de um queridinho dos brasileiros. "O fusca, além de campeão de vendas, foi também campeão de 'menchandising'. Segundo a própria Volkswagem, nenhum outro modelo apareceu tanto nos meios de comunicação quanto ele. E, além de ter imprimido sua presença no processo de industrialização do país, esteve também presente nos rallys, disputando palmo a palmo com os veículos maiores", diz outro trecho da reportagem de A TARDE que anunciou a descontinuidade da fabricação do Fusca no Brasil.
Cometa, futebol, Balão Mágico e Fórmula 1
O cometa Halley só pode ser visto da Terra sem uso de telescópios superpotentes a cada 75-76 anos. Como a última vez que ele havia passado pela órbita do planeta havia sido em 1910, a expectativa era enorme em 1986 para o avistamento do corpo celeste. Na época, o Brasil entrou na onda global e o Halley virou um símbolo de esperança. Teve música composta especialmente para ele, “Halley, olhe para o céu” dizia um dos versos, e uma corrida pela compra de lunetas e binóculos. Na falta desses, tinha gente improvisando barreiras para proteger os olhos com chapas de raio-x e negativos das antigas câmeras fotográficas analógicas. O Halley, de fato, passou pela Terra em 9 de fevereiro de 1986, mas nem todo mundo viu.
Junto com a frustração de esperar o cometa e não ver nem uma poeirinha de estrela, as crianças brasileiras ainda tiveram de lidar com outra triste notícia, o fim do programa Balão Mágico. O último episódio apresentado por Fofão, Simony, Mike, Tobby e Jairzinho foi exibido em 28 de junho e quem viveu aquela época sabe o que a Turma do Balão Mágico representava para as crianças dos anos 1980. Mas, no quesito TV, as crianças não ficaram desassistidas, dois dias depois, em 30 de junho, estreou o Xou da Xuxa, considerado um dos programas infantis de maior audiência da TV brasileira por anos e que também deixou saudades em muitos “baixinhos”.
Enquanto na TV a criançada assistia ao canto do cisne do Balão Mágico, os pais acompanhavam a Copa do Mundo do México, iniciada em 31 de maio de 1986, e amargavam a eliminação do Brasil. A seleção vencedora do mundial foi a Argentina. Mas, o jogo mais memorável dos ‘hermanos’ não foi a final que consagrou a seleção argentina como campeã. Nas mesmas quartas de final em que os canarinhos fizeram as malas e voaram para casa, Diego Maradona, o astro argentino, inventou nova forma de fazer gol, com “intervenção divina”.

Na partida contra os ingleses, Maradona mandou dois tentos para as redes adversárias, um deles com a mão e o outro, em uma jogada individual, foi considerado o Gol do Século. "Maradona leva a Argentina às semifinais com um gol de mão e outro de placa", dizia a edição de A TARDE de 23 de julho de 1986. O gol de mão acabou recebendo o apelido de “La mano de Dios” (A mão de Deus), em uma tentativa debochada do jogador justificar a travessura.
Já a "vingança" do Brasil após a eliminação da Copa de 1986 pela seleção da França aconteceria dias depois, na Fórmula 1. "O brasileiro Ayrton Senna (Lotus-Renault) ganhador do Grande Prêmio de Detroit de Fórmula 1, vingou a Seleção Brasileira de futebol ao vencer os franceses Jacques Laffite (Ligier Gitanes) e Alain Prost (Marlboro McLaren), segundo e terceiro colocados, respectivamente", noticiou A TARDE em 23 de junho de 1986.
Senna, que em breve se tornaria tricampeão mundial (1988, 1990 e 1991), não venceu o campeonato de Fórmula 1 de 1986. O campeão foi o francês Alain Prost, em 26 de outubro, em Adelaide, Austrália. Mas isso é outra história...
*Com a colaboração de Andreia Santana e Tallita Lopes
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