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'ARMANDOS' DO BRASIL

O Agente Secreto da vida real: o drama dos professores caçados pela ditadura

Histórias reais ecoam em personagem vivido por Wagner Moura

Beatriz Santos

Por Beatriz Santos

15/03/2026 - 7:02 h

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Conheça os 'Armandos' da vida real, intelectuais que resistiram à ditadura militar
Conheça os 'Armandos' da vida real, intelectuais que resistiram à ditadura militar -

A trajetória de Armando/Marcelo, protagonista do filme 'O Agente Secreto', que concorre ao Oscar 2026 neste domingo, 15, ecoa experiências reais vividas por professores e intelectuais brasileiros durante a ditadura militar. No longa dirigido por Kleber Mendonça Filho, o personagem, vivido por Wagner Moura, precisa assumir uma identidade falsa para escapar de perseguições políticas, em uma narrativa que mistura suspense e memória histórica.

Ambientado no Brasil de 1977, o thriller acompanha Armando, que passa a se apresentar como Marcelo, um professor universitário que foge de São Paulo para Recife após entrar em conflito com figuras poderosas ligadas ao regime.

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Ao tentar recomeçar a vida, ele percebe que o passado continua à espreita, em uma trama que aborda vigilância, repressão e o apagamento da memória histórica.

Embora ficcional, a história dialoga diretamente com episódios vividos por educadores, pesquisadores e intelectuais durante os anos da ditadura militar brasileira (1964–1985).

Naquele período, universidades se tornaram alvo de vigilância e controle, e muitos docentes foram perseguidos, presos, expulsos das instituições ou obrigados a deixar o país.

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“Toda ditadura precisa controlar os setores da inteligência de um país para conseguir se afirmar, se consolidar e se perpetuar. A ditadura brasileira não foi diferente: era preciso controlar as universidades”, explica o historiador Carlos Zacarias, em entrevista ao Cineinsite A TARDE. Segundo ele, o ambiente universitário era visto como um espaço estratégico para o regime, especialmente em um momento de forte mobilização política e cultural no país.

Por que a ditadura temia os intelectuais?

Imagem ilustrativa da imagem O Agente Secreto da vida real: o drama dos professores caçados pela ditadura
| Foto: Reprodução | Arquivo Nacional

Para compreender por que professores e pesquisadores passaram a ser alvo de perseguição durante a ditadura militar brasileira, é preciso olhar para o papel que as universidades desempenhavam naquele momento histórico. Nas décadas de 1950 e 1960, o ambiente universitário se tornou um dos principais centros de debate político, mobilização social e produção cultural do país.

De acordo com o pesquisador, o ambiente universitário reunia diferentes forças sociais que, naquele momento, estavam profundamente envolvidas em discussões sobre reformas políticas, participação popular e mudanças estruturais no país.

“Era um contexto em que, na virada dos anos 1950 para os anos 1960, a juventude estava em ascensão, fazendo alianças com os camponeses e tendo uma presença muito forte na cultura, por meio da UNE e do Centro Popular de Cultura da UNE”, explica.

Esse cenário, marcado por intensa mobilização cultural e política, passou a ser interpretado pela ditadura como um risco ao controle do regime. “Essa ebulição política representava um país em transformação, que envolvia as artes, a cultura e a própria urbanização. Tudo o que a gente vê nesse contexto precisava, de alguma forma, ser contido. Então a ditadura passa a enxergar a universidade como um espaço que precisava urgentemente ser controlado”, diz Zacarias.

A partir dessa percepção, as instituições de ensino superior passaram a ser monitoradas de perto pelo regime. A repressão não se limitava apenas a militantes políticos declarados, mas alcançava também professores e pesquisadores que atuavam na produção de conhecimento e no debate público.

Esse controle se intensificou em diferentes momentos ao longo do regime, especialmente após a consolidação da ditadura e a promulgação do Ato Institucional nº 5, em 1968. As consequências podiam ser profundas. Investigações internas e denúncias muitas vezes resultavam em processos administrativos, cassações ou expulsões de docentes e estudantes.

“Esses mecanismos podiam levar estudantes e professores a depor, barrar matrículas, expulsar alunos ou aposentar docentes compulsoriamente. Em muitos casos, essas investigações acabavam levando pessoas para interrogatórios que envolviam tortura, como aconteceu com diversos professores que foram cassados, expulsos ou obrigados a se aposentar naquele contexto”, afirma Zacarias.

Como funcionava a máquina de repressão dentro das universidades

Fotografia registrada em 21 de junho de 1968 durante um protesto estudantil contra a ditadura militar
Fotografia registrada em 21 de junho de 1968 durante um protesto estudantil contra a ditadura militar | Foto: Reprodução | Arquivo Nacional

Segundo Carlos Zacarias, uma das principais ferramentas da máquina de repressão era a Assessoria Especial de Segurança e Informação (AESI), um órgão que operava diretamente dentro das universidades e mantinha contato com os serviços de inteligência do regime.

“Entre os principais mecanismos está a Assessoria Especial de Segurança e Informação, a AESI, que funcionava dentro das universidades e infiltrava agentes. Esses agentes podiam ser disfarçados, secretos, pessoas que não eram conhecidas pelos demais e que coletavam informações sobre a movimentação de estudantes, professores e qualquer atividade que fugisse aos interesses da repressão”, explica.

“A violência esteve presente em todas as universidades brasileiras, especialmente porque estamos falando de um setor historicamente identificado como opositor ao regime. Isso acontece porque é um ambiente que reúne a inteligência e a intelectualidade do país: professores, estudantes e a própria necessidade de liberdade de expressão. São esses os operadores do pensamento dentro da universidade”, explica o historiador.

Ainda que apenas uma parcela dos estudantes e docentes estivesse diretamente ligada à militância política, o controle imposto pelo regime acabava afetando toda a comunidade acadêmica. “Parte dos estudantes e professores era militante político, uma parcela minoritária, é importante frisar, mas mesmo aqueles que não tinham militância acabavam impactados pelas condições que a ditadura impunha às universidades, que eram condições de controle e restrição”, afirma.

Milton Santos: prisão, perseguição e o caminho do exílio

Milton Santos foi um dos intelectuais exilados
Milton Santos foi um dos intelectuais exilados | Foto: Paulo Munhoz | Cedoc A TARDE

Entre os muitos intelectuais que enfrentaram perseguição durante a ditadura militar, o baiano Milton Santos se tornou um dos casos mais emblemáticos. Reconhecido internacionalmente por suas contribuições à geografia e ao pensamento social, ele também foi alvo direto da repressão instaurada após o golpe de 1964.

De acordo com documentos reunidos pela Comissão da Verdade da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Milton Santos chegou a ser preso logo no início do regime. Em sua ficha funcional na universidade consta que ele ficou detido entre 9 de abril e 23 de junho de 1964, período em que permaneceu sob custódia militar “para averiguações”.

Na época, Santos atuava como professor da Faculdade de Filosofia da UFBA, onde desenvolvia atividades no Laboratório de Geomorfologia e Estudos Regionais. Após ser libertado, ele solicitou licença médica e, poucos meses depois, pediu afastamento do país para lecionar em Paris, em um movimento que acabaria se transformando em um longo período de exílio.

Mesmo afastado do país, o geógrafo tentou manter vínculos institucionais com a universidade brasileira. Registros administrativos mostram que seu afastamento inicial foi autorizado por um ano, a partir de dezembro de 1964, com sucessivas prorrogações concedidas nos anos seguintes.

A situação mudou no final da década de 1960. Em março de 1969, um novo pedido de prorrogação foi negado pelo Departamento Administrativo do Serviço Público (DASP). Sem condições de retornar ao país naquele contexto político, Milton Santos acabou encaminhando um pedido de exoneração da UFBA, formalizado por meio da Portaria nº 228, de 14 de abril de 1969.

O historiador Carlos Zacarias explica que o caso de Milton Santos representa uma das trajetórias mais marcantes entre os intelectuais atingidos pelo regime militar. Segundo ele, o exílio acabou se tornando uma realidade para diversos intelectuais brasileiros naquele período. “Muitos profissionais deixaram o país, e o exílio acabou sendo o caminho para boa parte deles. Alguns foram acolhidos por grandes universidades no exterior”, explica.

Esse deslocamento forçado, no entanto, também acabou ampliando o alcance internacional de alguns desses pesquisadores.

“O caminho do exílio tem essa particularidade: em muitos casos, sem condições de trabalhar no país, esses intelectuais acabam ganhando ainda mais experiência e reconhecimento no exterior. Com a abertura política, muitos retornam e passam a contribuir de forma decisiva para a educação e o pensamento no Brasil. Esse também foi o caso de Milton Santos”, afirma o historiador.

Décadas depois, o geógrafo retornaria ao Brasil e se consolidaria como um dos maiores pensadores da geografia contemporânea, sendo reconhecido internacionalmente por sua produção intelectual.

Outros intelectuais perseguidos: Paulo Freire, Florestan e a diáspora acadêmica

Paulo Freire também foi afastado da universidade
Paulo Freire também foi afastado da universidade | Foto: Reprodução

Milton Santos não foi um caso isolado. Ao longo dos 21 anos de ditadura militar, diversos professores e pesquisadores brasileiros foram afastados de suas universidades, presos ou obrigados a deixar o país. Entre eles estavam alguns dos mais importantes intelectuais da história acadêmica brasileira.

Entre os nomes mais conhecidos está o educador pernambucano Paulo Freire, referência mundial em pedagogia. “Outro caso é o de Paulo Freire, que era professor da Universidade de Pernambuco e também foi afastado da universidade”, explica Zacarias. Após o golpe militar, Freire foi preso e posteriormente partiu para o exílio, período em que desenvolveu parte importante de seu trabalho educacional fora do Brasil.

O sociólogo Florestan Fernandes também enfrentou as consequências da repressão ao meio acadêmico. De acordo com o historiador, ele e integrantes de seu grupo de pesquisa foram diretamente atingidos pelas medidas impostas pelo regime. “Florestan Fernandes e integrantes de seu grupo de pesquisa, como Fernando Henrique Cardoso, Octavio Ianni e Emília Viotti da Costa, são outros exemplos de docentes que foram expulsos das universidades ou aposentados compulsoriamente”, afirma.

A saída desses intelectuais do país contribuiu para um fenômeno que ficou conhecido como diáspora acadêmica brasileira. Muitos professores perseguidos acabaram sendo acolhidos por universidades estrangeiras, onde puderam continuar suas pesquisas e atividades docentes.

“Alguns desses intelectuais seguiram carreira no exterior. Como eram pesquisadores reconhecidos, muitas universidades estrangeiras acabaram acolhendo esses professores durante o período da ditadura”, explica Zacarias.

Nem todos, no entanto, encontraram espaço imediato em instituições internacionais. Para alguns, o caminho foi mais incerto e marcado por diferentes formas de resistência.

“Outros, menos conhecidos, tiveram trajetórias diferentes. Como não foram absorvidos por grandes universidades fora do país ou não estavam vinculados a organizações de esquerda estruturadas, alguns acabaram se envolvendo diretamente na luta política e até na luta armada como forma de combater a ditadura”, afirma o historiador.

Memória e esquecimento: como universidades lembram a ditadura

O sociólogo Florestan Fernandes também enfrentou as consequências da repressão
O sociólogo Florestan Fernandes também enfrentou as consequências da repressão | Foto: Reprodução

Décadas após o fim da ditadura militar, parte dessas histórias passou a ser investigada e documentada por pesquisadores e por comissões da verdade criadas dentro das próprias universidades. Esses trabalhos ajudam a recuperar trajetórias de professores e estudantes que foram perseguidos ou impedidos de continuar suas atividades acadêmicas.

Segundo Carlos Zacarias, esse processo de memória acontece principalmente por meio da pesquisa acadêmica. “Essas histórias são lembradas dentro das universidades e também na historiografia brasileira por meio de alguns trabalhos acadêmicos. Há pesquisas de mestrado e doutorado dedicadas ao tema”, explica.

Ele destaca ainda a importância de investigações institucionais realizadas nos últimos anos. “Também contamos com os relatórios das comissões da verdade criadas nas próprias universidades. Seguindo o exemplo da Comissão Nacional da Verdade, instituída em 2012, essas iniciativas buscam levantar o que de fato aconteceu dentro das instituições de ensino superior”, afirma.

Ainda assim, o historiador alerta que a preservação dessa memória ainda enfrenta dificuldades. Para ele, quando não existem projetos específicos dedicados ao tema, muitas dessas histórias acabam se perdendo. “As universidades acabam reproduzindo o que acontece na sociedade como um todo: um grande esquecimento sobre o que a ditadura fez com o país”, acrescenta.

Embora o Brasil viva hoje em um regime democrático, episódios recentes mostram que o debate sobre liberdade acadêmica e autonomia universitária continua presente no país. O próprio Carlos Zacarias relata que também enfrentou pressões ao propor uma disciplina universitária sobre política brasileira contemporânea.

“Também fui alvo de perseguição. Mais recentemente, assistimos ao retorno dos militares à política brasileira e à ascensão que eles passaram a ter especialmente a partir de 2014 e 2015”, afirma.

Em 2018, o historiador participou da criação da disciplina “O golpe de 2016 e o futuro da democracia no Brasil”, oferecida na Universidade Federal da Bahia (UFBA). A proposta acabou gerando ataques e até um processo judicial movido por um vereador de Salvador.

“Quando anunciei a criação da disciplina no Facebook, passei a sofrer ataques. Depois disso, fui processado por um vereador da Câmara de Salvador, que entrou com uma ação contra mim, contra a UFBA e contra o então reitor João Carlos Salles, tentando impedir que a disciplina fosse oferecida”, conta.

Apesar da tentativa de barrar o curso, a disciplina acabou sendo realizada normalmente. “O pedido de liminar foi negado e as aulas começaram desde o primeiro dia previsto”, afirma o historiador.

Para ele, a autonomia universitária prevista na Constituição foi essencial para garantir que a iniciativa pudesse acontecer. “Os artigos 206 e 207 estabelecem a autonomia didático-científica das universidades. Não é um ministro, um militar, um vereador ou qualquer pessoa de fora da instituição que vai determinar o que pode ou não ser ensinado dentro dela”, conclui.

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