DARK HORSE
De Fragmentado a Jogos Mortais: veja filmes de Hollywood mais baratos que Dark Horse
Produção vendida como “hollywoodiana” recebeu ao menos R$ 61 milhões ligados ao banqueiro Daniel Vorcaro


Vendido como uma superprodução internacional, 'Dark Horse', filme inspirado na trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro, tornou-se alvo de questionamentos após reportagem do Intercept Brasil revelar que o projeto recebeu ao menos R$ 61 milhões, cerca de US$ 10,6 milhões, em transferências associadas ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
Segundo a publicação divulgada nesta quarta-feira, 13, o senador Flávio Bolsonaro teria negociado diretamente com Vorcaro um repasse total de US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões, para viabilizar o filme inspirado na trajetória política do pai.
O Intercept afirma ter tido acesso a áudios, mensagens, documentos e comprovantes bancários relacionados às negociações. Até o momento, ao menos US$ 10,6 milhões já teriam sido efetivamente pagos entre fevereiro e maio de 2025, por meio de seis transferências bancárias distintas.
Segundo documentos obtidos pelo veículo, o valor teria sido destinado exclusivamente ao financiamento da produção dirigida por Cyrus Nowrasteh eestrelada por Jim Caviezel, ator conhecido mundialmente por interpretar Jesus Cristo em 'A Paixão de Cristo' (2004).
Apresentado ao público como uma superprodução de padrão hollywoodiano, Dark Horse foi gravado em inglês e reúne elenco e direção norte-americanos, apostando na imagem de uma obra internacional de grande escala.
Apesar da proposta, o projeto é liderado pela empresa brasileira Go Up Entertainment que, embora declare endereço nos Estados Unidos, possui origem nacional. O roteiro é assinado por Mario Frias, ex-secretário de Cultura do governo Bolsonaro e atual deputado federal pelo PL de São Paulo.
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Na trama, Jair Bolsonaro é retratado como uma figura heroica em ascensão até a eleição presidencial de 2018, apresentado como um combatente do tráfico de drogas e da corrupção.
Em um dos áudios revelados pelo The Intercept, Flávio Bolsonaro demonstra preocupação com atrasos financeiros e afirma que a produção corria risco de perder nomes importantes do elenco e da equipe.
“Imagina a gente dando calote num Jim Caviezel, num Cyrus, uns caras, pô, renomadíssimos lá no cinema americano, mundial. Pô, ia ser muito ruim”, declarou o senador em mensagem enviada a Vorcaro. Em outro trecho, ele reforça a urgência dos pagamentos: “Agora que é a reta final, que a gente não pode vacilar. Não pode não honrar com os compromissos aqui, porque senão a gente perde tudo, cara, todo o contrato, perde ator, perde diretor, perde equipe, perde tudo”, disse Flávio Bolsonaro.
Após a divulgação pela mídia, Flávio Bolsonaro admitiu ter buscado apoio do banqueiro. Em nota divulgada após reunião de emergência da pré-campanha, ele afirmou que a relação com Vorcaro ocorreu exclusivamente para a busca de patrocínio privado para o filme.
“O que aconteceu foi um filho procurando patrocínio PRIVADO para um filme PRIVADO sobre a história do próprio pai. Zero de dinheiro público. Zero de Lei Rouanet”.
Filmes de Hollywood que custaram menos
O tamanho do investimento associado a Dark Horse passou a chamar atenção não apenas pelo contexto político do projeto, mas também pela comparação inevitável com produções internacionais de enorme alcance comercial e artístico.
Segundo levantamento do Cineinsite A TARDE, os cerca de R$ 61 milhões já identificados ultrapassam o orçamento de diversos filmes que marcaram Hollywood nas últimas décadas, incluindo obras estreladas por atores premiados, dirigidas por cineastas renomados e transformadas em fenômenos globais de bilheteria.
Um dos casos mais emblemáticos é 'Corra!' (2017). O terror psicológico dirigido por Jordan Peele custou cerca de US$ 4,5 milhões (R$ 22,1 milhões), valor muito inferior ao montante já ligado ao filme inspirado em Jair Bolsonaro. Mesmo com orçamento enxuto, o longa arrecadou mais de US$ 255 milhões mundialmente, venceu o Oscar de Melhor Roteiro Original e se consolidou como uma das obras mais influentes do cinema contemporâneo.
Outro exemplo é 'Fragmentado' (2016). Produzido por aproximadamente US$ 9 milhões (R$ 45,2 milhões), o thriller estrelado por James McAvoy apostava quase inteiramente na performance do ator, que interpreta múltiplas personalidades ao longo da trama. O filme arrecadou quase US$ 280 milhões e reforçou o retorno comercial de M. Night Shyamalan ao cinema de suspense.
Produções premiadas pela Academia também entram nessa comparação. 'Whiplash: Em Busca da Perfeição' (2014), estrelado por Miles Teller e J. K. Simmons, teve orçamento estimado em apenas US$ 3,3 milhões (R$ 16,5 milhões) e se tornou referência moderna entre os dramas musicais, vencendo três Oscars. Já 'Moonlight: Sob a Luz do Luar' (2016) foi realizado com cerca de US$ 1,5 milhão (R$ 7,5 milhões) antes de conquistar o Oscar de Melhor Filme.
O contraste aparece ainda em produções de terror que deram origem a franquias extremamente lucrativas. 'Jogos Mortais' (2004) custou aproximadamente US$ 1,2 milhão (R$ 6 milhões) e se transformou em uma das franquias mais populares dos anos 2000.
'Annabelle' (2014), por exemplo, foi produzido com cerca de US$ 6,5 milhões (R$ 32,6 milhões) e arrecadou mais de US$ 250 milhões nos cinemas, ajudando a consolidar um dos universos compartilhados de terror mais rentáveis da indústria. No mesmo gênero, 'Hereditário' (2018), estrelado por Toni Collette, teve orçamento estimado em US$ 10 milhões (R$ 50,2 milhões) e se transformou em um dos maiores sucessos da produtora A24.
Já 'Sobrenatural' (2010) chegou aos cinemas após ser realizado com aproximadamente US$ 1,5 milhão (R$ 7,5 milhões), antes de virar um fenômeno mundial de bilheteria.
Há ainda casos considerados praticamente lendários pela relação entre custo e retorno financeiro. 'Atividade Paranormal' (2007) custou cerca de US$ 15 mil (R$ 75,3 mil) e arrecadou quase US$ 200 milhões em bilheteria, tornando-se um dos filmes mais lucrativos proporcionalmente da história do cinema.
Situação semelhante ocorreu com 'Terrifier' (2016), inicialmente produzido com orçamento estimado em cerca de US$ 35 mil (R$ 175,9 mil) antes de crescer no boca a boca e se transformar em uma franquia extremamente rentável.
No caso de Dark Horse, porém, o debate ganha outra dimensão porque os R$ 61 milhões utilizados nas comparações representam apenas a parcela identificada até agora pela reportagem do Intercept Brasil. Não há confirmação de que esse tenha sido o único aporte financeiro recebido pela produção, o que mantém indefinido o custo total do longa.
Se considerados os R$ 134 milhões, a comparação cresce ainda mais
Se os cerca de R$ 61 milhões já identificados pela reportagem do Intercept Brasil já colocam Dark Horse acima do orçamento de diversos sucessos de Hollywood, o cenário ganha uma dimensão ainda maior quando entra na conta o valor total que teria sido negociado entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro.
Segundo o veículo, o montante discutido para financiar o longa inspirado em Jair Bolsonaro chegaria a aproximadamente R$ 134 milhões.
Embora a investigação tenha confirmado, até agora, apenas parte das transferências, o valor mencionado amplia drasticamente a lista de produções hollywoodianas de peso que custaram menos do que Dark Horse.
Um dos exemplos mais emblemáticos é 'Cisne Negro' (2010). O suspense psicológico estrelado por Natalie Portman custou cerca de US$ 13 milhões (R$ 65,3 milhões) e se transformou em um fenômeno mundial. O longa arrecadou mais de US$ 300 milhões, recebeu cinco indicações ao Oscar e garantiu a Portman a estatueta de Melhor Atriz.
Outro caso é 'Drive' (2011). Estrelado por Ryan Gosling, o thriller neon se tornou referência estética na cultura pop graças à fotografia estilizada, à trilha sonora marcante e às cenas de ação elaboradas. Ainda assim, teve orçamento estimado em aproximadamente US$ 15 milhões (R$ 75,3 milhões).
A diferença chama ainda mais atenção quando envolve produções conhecidas pelo alto nível técnico e pelos efeitos visuais sofisticados. 'Ex Machina: Instinto Artificial' (2014), com Oscar Isaac e Alicia Vikander, impressionou Hollywood ao construir uma estética futurista com cerca de US$ 15 milhões (R$ 75,3 milhões). O filme venceu o Oscar de Melhores Efeitos Visuais, superando blockbusters muito mais caros, e virou uma referência moderna da ficção científica.
Até produções recentes impulsionadas pelas redes sociais tiveram custos inferiores. 'M3GAN' (2022), por exemplo, custou aproximadamente US$ 12 milhões (R$ 60,3 milhões) e se transformou em fenômeno global antes mesmo da estreia, impulsionado pela viralização da boneca protagonista no TikTok. O longa arrecadou mais de US$ 180 milhões nas bilheterias mundiais e rapidamente garantiu uma sequência.
O impacto nas redes também ajudou a impulsionar 'A Substância' (2024). Estrelado por Demi Moore, o filme chamou atenção mundial pelas cenas extremas de horror corporal e pela crítica à obsessão estética em Hollywood. Mesmo cercado de repercussão, o longa teve orçamento estimado entre US$ 17 milhões e US$ 20 milhões (R$ 85,4 milhões e R$ 100,5 milhões).
Filmes centrados em grandes estrelas também aparecem nessa lista. 'Ela' (2013), protagonizado por Joaquin Phoenix e com participação de Scarlett Johansson, teve orçamento estimado em cerca de US$ 23 milhões (R$ 115,5 milhões). O romance futurista conquistou crítica e público pela originalidade da narrativa e venceu o Oscar de Melhor Roteiro Original.
A comparação também alcança produções com temática política semelhante. 'O Aprendiz' (2024), cinebiografia inspirada na ascensão empresarial e política de Donald Trump, teve orçamento estimado em cerca de US$ 16 milhões (R$ 80,4 milhões). O longa estrelado por Sebastian Stan ganhou repercussão internacional ao retratar bastidores da formação pública do ex-presidente norte-americano.
O terror aparece novamente entre os exemplos mais simbólicos. 'Invocação do Mal' (2013) custou cerca de US$ 20 milhões (R$ 100,5 milhões) e ajudou a consolidar uma das franquias de horror mais lucrativas e influentes do cinema contemporâneo, mesmo com orçamento inferior aos valores associados a Dark Horse.


