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É DE GATO MESMO?

Como o mito do "espetinho de gato" afeta as vendas de ambulantes no Carnaval

Ambulantes faturam até R$ 2,5 mil por dia e transformam o mito do espetinho em estratégia de venda

Marina Branco
Por Marina Branco
Neuza de Sousa, de 56 anos, está há mais de 20 carnavais trabalhando na rua
Neuza de Sousa, de 56 anos, está há mais de 20 carnavais trabalhando na rua - Foto: Marina Branco I Ag. A TARDE

Todo folião que já saiu para o Carnaval de Salvador ouviu, pelo menos uma vez, o clássico conselho "cuidado com espetinho de gato".

A fama de que os espetinhos vendidos nos circuitos da festa seriam feitos de gato acompanha a cultura urbana brasileira há décadas, desde que surgiu como desconfiança de que a carne usada teria procedência duvidosa, preparo improvisado, ausência de fiscalização.

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Desde então, o ambulante que trabalha nas ruas da cidade virou, muitas vezes, alvo de piada - mas ao conversar com alguns deles, é fácil perceber que eles já sabem exatamente como lidar com as piadinhas, e mais que isso, reverter em renda.

Do mito ao lucro

No circuito Barra-Ondina, mais especificamente no Morro do Cristo, Rosângela Santos vende os churrasquinhos com os quais trabalha desde os 18 anos. Hoje, aos 35, vende em um ponto fixo durante o ano na Suburbana, ao lado do Atakarejo, e no circuito do Carnaval quando fevereiro chega.

Assim, já é mais que acostumada com o mito, e sabe como lidar com ele. "O povo chega aqui perguntando: tem espetinho de gato? Aí a gente fala que tem, brincando", conta.

"A fama não atrapalha, aí é que vende mais. A piada faz com que a galera chegue mais", explica.

No cardápio, no entanto, não tem gato, com a barraquinha de Rosângela vendendo espetinhos de carne com calabresa, frango puro, cupim, marmitinha, pirão de aipim e arrumadinho.

Rosângela Santos vende os churrasquinhos com os quais trabalha desde os 18 anos
Rosângela Santos vende os churrasquinhos com os quais trabalha desde os 18 anos - Foto: Marina Branco I Ag. A TARDE

Faturamento

Com cada espetinho custando entre R$ 15 e R$ 18 e o pirão e o arrumadinho custam R$ 25, o faturamento costuma ser estável, e aumenta ainda mais na época de Carnaval.

"Eu vou vender uns mil e quinhentos na noite, mil reais, depende do movimento", conta.

Durante o resto do ano, no ponto fixo, ela garante que também “dá pra ganhar um diário bom”. Mas na festa, o faturamento aumenta.

Quem também sente o impacto da folia é Neuza de Sousa, de 56 anos, que já está há mais de 20 carnavais trabalhando na rua.

No caso dela, o lucro pode chegar a R$ 2 mil ou R$ 2,5 mil por noite em uma barraquinha onde os preços variam, sendo R$ 15 no espeto tradicional e R$ 25 quando feito na chapa. No cardápio, frango, calabresa e carne.

Espetinho raiz x “premium”

Enquanto o ambulante vende por R$ 15 ou R$ 18, bares e estabelecimentos fixos em áreas nobres de Salvador oferecem versões "gourmetizadas" que podem ultrapassar R$ 35 ou R$ 40, com cortes especiais, molhos autorais e ambientação climatizada.

No entanto, economicamente, o ambulante mostra que o modelo funciona, e não perde pela criação dos "espetinhos premium". Vender R$ 1.500 em uma noite ou lucrar até R$ 2.500 durante o Carnaval revela que o espetinho das ruas continua sendo um dos produtos mais resilientes da economia informal soteropolitana.

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E, para ambulantes como Rosângela, não só isso - também é muito melhor. "Esse é mais gostoso (do que o gourmet), com certeza. É tão gostoso que o povo come e volta para comprar novamente. Todo dia chega aqui", conta.

Para ela, a diferença está só no tipo da carne, que agrada a diferentes gostos e, por isso, varia na decisão de "qual é melhor" de acordo com o consumidor.

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Carnaval Salvador comida de rua cultura popular brasileira economia informal Espetinho de gato Lucro ambulante

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