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MEMÓRIA

Marcha do Silêncio lembra vítimas da ditadura

Grupo Tortura Nunca Mais organizou a marcha, que partiu da Praça da Piedade até o Campo da Pólvora

Priscila Dórea
Por Priscila Dórea
Organizada pelo grupo Tortura Nunca Mais, marcha tem importância histórica e ocorreu em todo o Brasil
Organizada pelo grupo Tortura Nunca Mais, marcha tem importância histórica e ocorreu em todo o Brasil - Foto: Raphael Muller / Ag. A TARDE

“É uma questão de resistência, pois não podemos deixar essa memória morrer. Não podemos deixar que as pessoas que se sacrificaram sejam esquecidas”, afirmou a publicitária aposentada Sônia Maria Haas, durante a Marcha do Silêncio Salvador 2024. Irmã mais nova do médico João Carlos Haas, assassinado no Araguaia durante a Ditadura Militar, Sônia estava entre a centena de pessoas que marcharam em silêncio na tarde de ontem (1º) da Praça da Piedade até o Campo da Pólvora, em memória dos desaparecidos e mortos durante a Ditadura Militar.

“Levantamos bandeiras, fazemos eventos, damos entrevistas e fazemos tudo o que é possível para que essa história, ainda tão obscura nos livros didáticos do Brasil e não assumida oficialmente, não seja esquecida”, pontuou Sônia, que não pôde ir ao enterro do irmão, pois o corpo dele nunca foi entregue à família. Poucas são as famílias que têm a informação de onde seus entes queridos foram enterrados depois de serem assassinados durante a Ditadura, explicou a ativista pelos direitos humanos Diva Santana, diretora do grupo Tortura Nunca Mais – Bahia, que organiza a Marcha.

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Irmã de Dinaelza Santana Coqueiro e cunhada de Vandique Santana Coqueiro, ambos considerados desaparecidos desde a Ditadura, Diva salienta que a distinção entre mortos e desaparecidos é importante, “pois algumas famílias só sabem o dia que o filho saiu de casa”, afirma ela, que ainda explica que a marcha tem como objetivo lembrar e homenagear “aqueles e aquelas que tombaram e deram suas vidas em defesa da liberdade de um país justo. Mas, sobretudo, para evitar que esse triste episódio de nossa história se repita”.

A Ditadura permanece na história da democracia brasileira, enfatizou durante seu discurso na Marcha o professor aposentado da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e perseguido pela Ditadura, Joviniano Neto. “É como uma ferida que não fecha, porque nunca foi tratada corretamente e infecciona toda a nossa democracia. Por isso a Marcha é um momento de memória, pois conhecer sua história é essencial para que cada pessoa construa sua identidade, mas também é um momento de denúncia e julgamento”, salientou o professor, que é vice-presidente do Tortura Nunca Mais – Bahia.

Pesquisadora e mestranda de história da Universidade do Estado da Bahia (Uneb), Amanda Carvalho Gonçalves, de 29 anos, tem o grupo Tortura Nunca Mais como objeto de estudo e veio de Santo Antônio de Jesus (Recôncavo Baiano) apenas para participar da Marcha. “É um ato muito importante para que a gente não deixe cair no esquecimento o que aconteceu e, mais importante, impedir que volte a acontecer. Me interesso pelo tema desde a graduação e quando soube do grupo através de minha orientadora, sabia que esse seria o tema do meu mestrado”, conta.

Mobilização

A Marcha do Silêncio aconteceu pelo país inteiro entre domingo, 31, e o dia 1º de abril, e a importância histórica dele é imensa, destaca a titular da Secretaria de Promoção da Igualdade Racial (Sepromi), Ângela Guimarães, presente na Marcha de Salvador. “É um ato de descomemoração, de um processo de ruptura democrática e de um golpe militar que deixou marcas profundas na nossa sociedade e que deixou digitais em toda a nossa história”, afirmou.

Atos como esse, explicou Ângela, educam a sociedade. “A gente está vendo aqui novas gerações de crianças e adolescentes presentes nos atos, que educam e também servem para alertar que a nossa sociedade precisa estar mobilizada de forma permanente, para que outros atos golpistas e ações que atentem contra a democracia, que é o mesmo que atentar contra os direitos do povo, não voltem a acontecer”.

Também presente na Marcha, o político, ativista do movimento negro e cientista social Kleber Rosa apontou que esse é um ato que demarca a posição política sobre o fato. “E é óbvio que a demarcação do ato é uma demarcação crítica e uma posição política sobre a Ditadura Militar e as narrativas, sobretudo, em tempos tão sombrios no qual estamos saindo de uma apologia à própria Ditadura. Vivemos recentemente uma tentativa de golpe, então a Marcha do Silêncio também tem esse papel de, nesse momento histórico, fazer uma disputa crítica sobre a narrativa do que foi a Ditadura Militar no Brasil”, enfatizou.

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Tags

desaparecidos direitos humanos ditadura militar Marcha do Silêncio. memória resistência

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