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Sobre o acaso e as coincidências

Confira o artigo desta sexta-feira, 15

Armando Avena
Por Armando Avena
Capa do livro do romance Homo Faber, de Max Frisch
Capa do livro do romance Homo Faber, de Max Frisch - Foto: Reprodução

As coincidências intrigam-me, mas não creio nelas. Creio no acaso, que estabelece um princípio de desordem, um elemento que rompe a ilusão da causalidade lógica. O acaso é diferente da coincidência, pois acontece o tempo todo. A coincidência só existe quando alguém faz ou percebe uma conexão.

Por exemplo, no romance Homo Faber, de Max Frisch, Walter Faber é um engenheiro que acredita apenas na razão, na técnica e no controle racional da vida. Mas, de repente, as coincidências se impõem: a pane no avião, um encontro casual com um homem desconhecido que tinha ligações com seu passado e um encontro com uma jovem que ele nunca viu, mas que é seu próprio passado vivo.

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Coincidências assim são improváveis e acabam em tragédia, e a intenção de Frisch é, ao que parece, demonstrar que a vida pode se organizar sem pedir licença à razão, que pode haver conexões profundas sem que percebamos e que, às vezes, só as entendemos quando já não há o que fazer.

Pode-se dizer que Homo Faber é uma releitura de Édipo Rei no mundo contemporâneo e é tão trágico quanto Sófocles. É um livro magistral, transposto para o cinema no filme O Viajante, de Volker Schlondorff, com Sam Shepard.

Pensei em escrever sobre Homo Faber, mas já o havia feito outras vezes, e parti em busca de um tema para minha crônica. Então, passeando pelo computador, descubro que seu autor nasceu exatamente no dia 15 de maio. Essa coincidência – e apenas ela – fez-me escrever novamente sobre o livro. A coincidência ocorre quando selecionamos eventos, ligamos pontos, atribuímos sentido ao acaso.

A 1ª Guerra Mundial foi deflagrada por causa de uma coincidência, que resultou no assassinato de Francisco Ferdinando, arquiduque da Áustria e herdeiro do trono do Império Austro-Húngaro, em 1914.

Durante uma visita a Sarajevo, um conspirador lançou uma bomba contra o carro do arquiduque. A bomba passou por debaixo do chassi e atingiu outro veículo. A segurança ordenou ao motorista que mudasse o trajeto e seguisse por outra rua. Ele fez isso, mas errou o caminho, entrou numa rua errada e parou justamente a poucos metros do conspirador, Gavrilo Princip, que puxou a arma e matou o arquiduque.

Quem acredita que há padrões e significados em coincidências diria que foi uma delas que deflagrou a 1ª Guerra Mundial.

O famoso psicanalista Carl Gustav Jung acreditava na sincronicidade, a coincidência entre eventos sem relação causal. Para ele, a coincidência já traz sentido em si mesma. Assim, uma coincidência pode ser apenas um olhar sobre a realidade que estabeleceu conexões entre fatos. Ou, pelo contrário, o erro do motorista e o fato de ele ter estacionado o carro próximo ao conspirador podem ter sido exclusivamente fruto do acaso. Ou ainda, como diria Jorge Luis Borges, em O Jardim das Veredas que se Bifurcam, o acaso é apenas uma forma de perceber um sistema de infinitas possibilidades.

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Tags

acaso coincidência Homo Faber Max Frisch sincronicidade Tragédia

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