AGRO
Mercado de carbono no Matopiba pode movimentar US$ 1 bilhão e transformar o Cerrado
Desafio da preservação ambiental mobiliza agronegócio no Matopiba

O potencial do mercado de carbono começa a ganhar espaço no debate sobre o futuro do Matopiba. Para o secretário extraordinário de Controle do Desmatamento do Ministério do Meio Ambiente (MMA), André Lima, a região reúne condições únicas para estruturar esse tipo de iniciativa, especialmente pela quantidade de vegetação nativa ainda preservada acima do exigido por lei.
“A região do Matopiba, e particularmente o oeste da Bahia, ainda tem um volume que a gente chama de ativo florestal, que é vegetação de Cerrado acima do mínimo que a lei exige”, afirma. Segundo ele, há áreas com mais de um milhão de hectares nessa condição.
Esse estoque de vegetação representa, na prática, uma oportunidade econômica. “Dependendo do método que se aplica para fazer a contabilidade do carbono que se evita na atmosfera, nós podemos estar falando de algo em torno de 100 milhões de toneladas de CO₂”, diz.
Ele explica que essa estimativa pode variar, mas dá uma dimensão do potencial envolvido. “Se eu considerar 100 milhões de toneladas de CO₂, a 10 dólares a tonelada, eu estou falando de um bilhão de dólares”.
Apesar do valor expressivo, Lima ressalta que transformar esse potencial em receita depende de uma estrutura ainda em construção.
“Se o mercado vai assimilar isso ou não, como fazer isso, quem é que vai comprar, se dá para gerar créditos de carbono, tudo isso é um processo que pode ser construído”, diz.
Para ele, esse não é um movimento que possa ser feito de forma isolada. “Ele não vai ser construído de maneira individual, com cada fazendeiro fazendo a sua continha de carbono. É uma estratégia que é possível desenhar para a região”, afirma.

Desafios técnicos
Essa construção, no entanto, esbarra em desafios técnicos. Para Marco Bomfim, chefe-geral da Embrapa Cocais (MA), o principal obstáculo hoje é a falta de base de dados robusta para mensurar o carbono nas áreas agrícolas e de Cerrado.
“Houve a aprovação de uma lei no ano passado voltada para regulação desse mercado, mas a agricultura ficou de fora”, afirma.
Segundo ele, isso ocorre porque ainda não há precisão suficiente para calcular emissões e estoques no campo. “A gente não tem uma base robusta para entrar numa propriedade e conseguir fazer um balanço”, diz.
Bomfim explica que esse processo de mensuração está em desenvolvimento. “Nós estamos hoje com a plataforma de carbono dentro da Embrapa, acelerando o processo de mensuração desses dados”, afirma.
O objetivo é responder perguntas básicas para o funcionamento do mercado. “Quanto tem cada árvore dessa de carbono? Qual é o estoque? Quanto você acumula ao longo do tempo?”, diz. Segundo ele, essa etapa é essencial para viabilizar a participação da agricultura no mercado regulado no futuro.

Mercado voluntário
Enquanto isso, o mercado já existe, ainda que de forma limitada. “Hoje tem um mercado que funciona, que a gente chama de mercado não regulado, um mercado voluntário”, afirma Bomfim. Nesse modelo, empresas compram créditos para cumprir metas próprias de sustentabilidade.
“Mas a gente não tem um mercado formal estruturado”, diz. Para ele, isso deve mudar. “Isso vai existir, não há dúvida disso”, afirma, destacando que o avanço depende da criação de projetos e da ampliação da base de dados.
Segundo Lima, o caminho passa por articulação coletiva. “Existe organização na região que poderia pensar nesse modelo”, diz.
A proposta envolve combinar produção agrícola com conservação ambiental e geração de renda adicional.
“Como é que a gente faz para aumentar a produção, aumentar a produtividade e aumentar a rentabilidade sem desmatar mais?”, questiona. A resposta, segundo ele, está em um modelo que integre essas variáveis com o mercado de carbono.
“Você faz uma contabilidade de desenvolvimento que envolve aumento de produção, aumento de produtividade e um complemento de renda através da redução das emissões por desmatamento e degradação florestal, que é o chamado REDD”, explica.
Bomfim acrescenta que esse tipo de modelo também pode beneficiar outros perfis de produtores, incluindo a agricultura familiar.
“Para a própria agricultura familiar extrativista que explora a floresta em pé, os frutos do Cerrado, como o pequi, isso pode gerar renda”, afirma.
Segundo ele, a lógica é permitir que a conservação também tenha retorno econômico. “Para que eles possam explorar a floresta em pé e capitalizar em razão da manutenção dessa floresta”, diz.
Siga o A TARDE no Google Notícias e receba os principais destaques do dia.
Participe também do nosso canal no WhatsApp.
Compartilhe essa notícia com seus amigos
Siga nossas redes


